Como me tornei controlador de tráfego aéreo: da reprovação na AFA ao controle de aproximação
Tem hora em que a vida muda de rota sem pedir autorização.
Naquele momento, eu estava bem chateado com a FAB. Tinha acabado de ser reprovado no TAPMIL, o teste de aptidão à pilotagem militar, e junto com aquele resultado veio uma sensação difícil de explicar. Parecia que o plano que eu tinha imaginado para a minha vida na aviação tinha desmoronado de uma vez.
Meu objetivo era claro. Eu queria seguir a pilotagem militar e iniciar o curso na Academia da Força Aérea.
Quando isso não aconteceu, ficou aquela mistura de frustração, dúvida e vazio.
E foi aí que tudo começou a mudar.
Quando o plano original falhou
Em 2019, uma amiga me falou sobre o concurso da EEAR para controlador de tráfego aéreo, na especialidade BCT, o Básico de Controle de Tráfego Aéreo.
Confesso que, no começo, fiquei com um pé atrás.
Eu sempre gostei de me movimentar, de algo mais dinâmico, criativo, intenso. Então, na minha cabeça, eu ainda não entendia direito se o controle de tráfego aéreo realmente combinava comigo. Parecia interessante, mas ao mesmo tempo distante daquilo que eu imaginava viver na prática.
Mesmo assim, decidi fazer o concurso.
Hoje, olhando para trás, vejo que essa decisão aparentemente simples mudou completamente minha rota dentro da aviação.
Às vezes, o caminho que parece ser apenas uma segunda opção acaba virando o caminho certo.
O que me chamou atenção nos estudos
Durante a preparação, teve uma coisa que me surpreendeu logo de cara.
A prova de inglês para controlador de tráfego aéreo, na especialidade BCT, era diferente das demais. O nível era maior. Para muita gente isso poderia ser um problema, mas para mim foi um atrativo, porque inglês sempre foi um dos meus pontos fortes.
Ali, pela primeira vez, senti que talvez eu pudesse ter uma vantagem real.
Por outro lado, física continuava sendo física.
Essa sempre foi uma das matérias que mais me davam trabalho, desde o ensino médio. Então eu já sabia que precisaria compensar de alguma forma. Como não tive tempo de estudar todo o conteúdo como gostaria, foquei bastante em fazer provas antigas.
E isso me ajudou muito.
A prova e a sensação de incerteza
Confesso que não fui fazer a prova com muita expectativa.
Eu estava apreensivo. Sabia que não tinha conseguido estudar tudo. Ao mesmo tempo, também sabia que tinha me preparado da melhor forma possível dentro da realidade que eu tinha. Então fui mais com a cabeça de quem queria fazer uma prova inteligente do que com a certeza de aprovação.
Quando a prova começou, percebi que ela estava dentro do nível que eu esperava.
Nem fácil demais, nem impossível.
Era o tipo de prova que exigia atenção, estratégia e calma.
Depois dela, veio a parte que todo concurseiro conhece bem: a espera.
O resultado que mudou tudo
Meses depois, saiu o resultado.
Aprovado.
Lembro bem da sensação. Fiquei feliz e nervoso ao mesmo tempo. Feliz porque era uma conquista importante. Nervoso porque eu ainda não fazia ideia do que estava pela frente.
Passar era só o começo.
Eu tinha conseguido abrir uma porta, mas ainda não sabia exatamente o que existia do outro lado.
A entrada na EEAR
Em 2020, entrei na Escola de Especialistas da Aeronáutica, a EEAR.
Foram dois anos aprendendo sobre vida militar e sobre controle de tráfego aéreo. E, sinceramente, foi uma experiência incrível.
Uma das coisas que mais marcaram esse período foi o fato de que quase tudo ali era novo para todo mundo. Isso faz diferença. Em muitas áreas, sempre tem gente que já chega sabendo bastante coisa. No controle de tráfego aéreo, boa parte do que a gente aprende durante a formação é novidade para praticamente todos.
A teoria era nova. A prática simulada era nova. A forma de raciocinar era nova. O peso da responsabilidade também era algo novo.
E talvez por isso a turma tenha se unido tanto.
Todo mundo estava tentando aprender o máximo possível, errando, evoluindo, ganhando experiência e querendo absorver o máximo de conhecimento. Isso tornava tudo mais intenso e mais especial ao mesmo tempo.
Poucas coisas na vida são realmente novas para quase todo mundo ao mesmo tempo. O controle de tráfego aéreo foi uma delas.
O momento da escolha
Depois da formação, veio mais uma decisão importante.
Escolhi o Nordeste como minha casa e o APP, o Controle de Aproximação, como especialidade.
E essa escolha fez muito sentido para mim.
Para quem ainda não conhece bem essa área, o APP é uma parte essencial da operação. É onde o tráfego começa a ganhar outra dinâmica. É onde chegadas e saídas precisam ser organizadas com precisão para manter fluxo e segurança o tempo todo.
Talvez no começo eu tivesse receio de entrar em uma área que me parecesse parada demais. No fim, encontrei exatamente o que eu procurava: dinamismo, responsabilidade, intensidade e muito aprendizado.
O que eu aprendi com tudo isso
Hoje eu consigo olhar para trás e entender uma coisa com clareza.
Na época, ser reprovado no TAPMIL doeu. E doeu de verdade.
Mas aquela reprovação não foi o fim da minha história na aviação. Foi só a mudança de rota que eu ainda não tinha entendido.
O plano original não deu certo.
Mas isso não significa que o destino final seria pior.
Na verdade, foi justamente essa mudança inesperada que me levou a conhecer uma área que eu não considerava de verdade e que acabou se tornando parte importante da minha vida.
Nem sempre a rota que você imaginou primeiro é a que vai te levar mais longe.
Como se tornar controlador de tráfego aéreo no Brasil
Se você tem curiosidade sobre esse caminho, aqui vai um resumo simples:
Escolaridade: ensino médio completo
Ingresso: o caminho mais comum é pelo concurso da EEAR
Frequência: geralmente acontecem dois concursos por ano
Formação: cerca de 2 anos
Saída: terceiro-sargento da Aeronáutica
Salário inicial: em torno de R$ 5 mil
Esse foi o primeiro texto por aqui, mas está longe de ser o último.
Nos próximos posts, eu posso falar sobrecomo funciona o APP na prática, curiosidades do tráfego aéreo, o que realmente faz um controlador de tráfego aéreo, como estudar para a prova e também sobre bastidores que quase ninguém vê.
Agora eu quero saber de você.
Você já conhecia esse caminho dentro da aviação? Tem alguma dúvida sobre o processo de formação ou sobre a vida do controlador?
E sobre o que você quer ler aqui no blog? Comenta. Sua ideia pode virar o próximo post.


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